Renda e voto — Lula perdeu os pobres e ganhou os ricos?Brasil · 2018, 2022 e 2026, por município, local de votação e pesquisa
Responsável técnico: Alexandre Garcia — CEO, Opinião Inteligência Política
1Objetivo, hipóteses e fontes
Depois do 1º turno de 4 de outubro de 2026, circulou a afirmação de que Lula perdeu votos entre os mais pobres e ganhou entre os mais ricos. Um vídeo que circulou, com análise cidade por cidade, mostrou que Lula vence com folga onde há mais Bolsa Família e que, de 2022 para 2026, piorou em quase todas as cidades, mais no interior que nas capitais. Este estudo verifica a afirmação com três fontes independentes: o resultado das urnas cruzado com dados dos municípios, o resultado das urnas dentro das cidades e as pesquisas.
Registramos as hipóteses antes dos testes. H1: a queda de Lula foi maior nos municípios mais pobres, comparando municípios do mesmo estado. H2: nos municípios mais ricos, Lula subiu. H3: o padrão de H1 resiste aos controles de tamanho da cidade, capital e voto anterior. H4: dentro das cidades, Lula perdeu mais nos locais de votação com eleitores de menor escolaridade. H5: nas pesquisas do mesmo instituto, Lula caiu mais na faixa de renda mais baixa. Depois dos primeiros resultados, acrescentamos uma hipótese que não estava no protocolo, H6: a queda foi maior onde a agropecuária pesa mais na economia local, mesmo comparando cidades do mesmo tamanho (seção 3.4). Por ter nascido dos dados, H6 é exploratória.
Trabalhamos com três unidades. O município (5.570) liga o voto ao Censo e ao Bolsa Família. O local de votação, a escola onde funcionam as seções, permite comparar bairros da mesma cidade; usamos os locais presentes em 2022 e 2026 em cidades com pelo menos 20 locais. A pesquisa é a única fonte que olha o eleitor, e não o lugar. O Capítulo 2 mostra a fotografia de 2026; os Capítulos 3 a 6 aplicam os testes; o Capítulo 7 conclui e o 8 registra as limitações.
2A fotografia de 2026
Dividimos os municípios em dez grupos com cerca de 10% do eleitorado cada (como os municípios não são fracionados, os grupos vão de 8,9% a 11,6%), do menor para o maior valor de cada medida. A tabela mostra Lula x Flávio, em votos válidos, no primeiro, no quinto e no último grupo.
| Medida (do menor para o maior) | 1º grupo | 5º grupo | 10º grupo |
|---|---|---|---|
| Renda por pessoa | 69,5% x 26,5% | 36,3% x 55,1% | 42,4% x 46,7% |
| Bolsa Família | 27,4% x 63,5% | 40,3% x 51,2% | 69,3% x 26,5% |
| Evangélicos | 60,6% x 33,6% | 41,4% x 50,1% | 38,3% x 54,3% |
Fonte: TSE, dados abertos — votação por seção, presidente, 1º turno, 2026; Brasil sem exterior. IBGE, Censo 2022 (tabelas 10295 e 9537). MDS, Bolsa Família, set/2026. Elaboração Opinião Inteligência Política.
A fotografia confirma o retrato que circulou: onde há mais pobreza e mais Bolsa Família, Lula tem 7 de cada 10 votos; o voto em Flávio cresce até as cidades de classe média e recua nas mais ricas, que são capitais e grandes cidades. Os 10% de eleitores dos municípios mais pobres estão 77% no Nordeste e 22% no Norte; os 10% dos mais ricos estão em São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre e cidades parecidas.
3Teste 1: a queda de Lula por renda do município
3.1 A variação por grupo de renda
| Grupo | Renda por pessoa | Lula 2022 | Lula 2026 | Variação | Perda proporcional | Votos de Lula (2026 − 2022) |
|---|---|---|---|---|---|---|
| 1º | R$ 289 a R$ 735 | 73,4% | 69,5% | −4,0 ponto | −5,4% | 30.949 |
| 2º | R$ 735 a R$ 924 | 67,4% | 63,1% | −4,3 ponto | −6,3% | -140.059 |
| 3º | R$ 924 a R$ 1181 | 54,3% | 50,2% | −4,1 ponto | −7,5% | -298.228 |
| 4º | R$ 1181 a R$ 1379 | 46,1% | 41,9% | −4,2 ponto | −9,1% | -444.291 |
| 5º | R$ 1380 a R$ 1560 | 41,5% | 36,3% | −5,2 ponto | −12,5% | -588.839 |
| 6º | R$ 1560 a R$ 1707 | 43,7% | 40,1% | −3,6 ponto | −8,2% | -464.869 |
| 7º | R$ 1708 a R$ 1938 | 40,0% | 35,8% | −4,2 ponto | −10,6% | -503.092 |
| 8º | R$ 1940 a R$ 2284 | 36,8% | 33,1% | −3,7 ponto | −10,1% | -439.184 |
| 9º | R$ 2285 a R$ 2700 | 39,2% | 37,4% | −1,8 ponto | −4,6% | -241.037 |
| 10º | R$ 2713 a R$ 4300 | 43,3% | 42,4% | −0,8 ponto | −1,9% | -310.534 |
Perda proporcional: variação dividida pelo voto de Lula em 2022. Fonte: TSE, dados abertos — votação por seção, presidente, 1º turno, 2022 e 2026; Brasil sem exterior. IBGE, Censo 2022 (tabelas 10295 e 9537). MDS, Bolsa Família, set/2026. Elaboração Opinião Inteligência Política.
Do 1º ao 8º grupo, Lula perdeu de 3,6 a 5,2 pontos. Nos dois grupos mais ricos, perdeu 1,8 e 0,8. Em nenhum grupo ele subiu. Medida em proporção do próprio voto, a perda é menor nos mais pobres (5,4%) do que na classe média (12,5% no 5º grupo); no grupo mais pobre, Lula teve até 30.949 votos a mais que em 2022, porque o comparecimento subiu.
3.2 Capitais e interior
| Lula 2022 | Lula 2026 | Variação | Votos de Lula (2026 − 2022) | |
|---|---|---|---|---|
| 27 capitais | 45,5% | 44,9% | −0,6 ponto | −0,47 mi |
| Demais 5.543 municípios | 49,3% | 45,2% | −4,1 pontos | −2,93 mi |
Fonte: TSE, dados abertos — votação por seção, presidente, 1º turno, 2022 e 2026; Brasil sem exterior. Elaboração Opinião Inteligência Política.
3.3 Renda ou tamanho da cidade?
A pergunta. A tabela 3.1 sugere que os municípios mais ricos protegeram Lula. Mas quem são os municípios mais ricos? São quase todos capitais e cidades grandes: São Paulo, Brasília, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre. E a seção 3.2 mostra que as capitais seguraram Lula. Renda e tamanho andam juntos, e é preciso separar um do outro antes de dizer que "os ricos" fizeram alguma coisa.
Primeiro passo, sem estatística. A tabela abaixo compara a variação do voto de Lula em cidades do mesmo tamanho, separadas por renda. Se a renda protegesse Lula, a perda deveria diminuir da esquerda para a direita em cada linha.
| Cidades com… | Renda até R$ 900 | R$ 900 a 1.500 | Acima de R$ 1.500 | Todas |
|---|---|---|---|---|
| até 20 mil eleitores | −4,5 (1.532) | −6,8 (1.709) | −7,5 (970) | −5,6 (4.211) |
| 20 mil a 100 mil | −3,9 (429) | −4,7 (331) | −5,3 (378) | −4,4 (1.138) |
| 100 mil a 500 mil | −1,6 (6) | −2,7 (78) | −2,9 (108) | −2,7 (192) |
| mais de 500 mil | — | −1,3 (4) | −0,8 (25) | −0,9 (29) |
| Todos os municípios | −4,1 (1.967) | −4,3 (2.122) | −3,0 (1.481) | −3,3 (5.570) |
Variação do voto de Lula, em pontos dos votos válidos, 2022 → 2026; entre parênteses, número de municípios. Renda: rendimento domiciliar per capita médio, Censo 2022. Fonte: TSE, dados abertos — votação por seção, presidente, 1º turno, 2022 e 2026; Brasil sem exterior. Elaboração Opinião Inteligência Política.
O resultado é o contrário do que a tabela 3.1 sugeria. Em três das quatro faixas de tamanho, as cidades mais ricas perderam mais, e não menos. A exceção são as cidades com mais de 500 mil eleitores, onde as mais ricas perderam menos (−0,8 contra −1,3). Nas cidades com até 20 mil eleitores, Lula perdeu 4,5 pontos nas mais pobres e 7,5 nas mais ricas. O que muda muito é de uma linha para outra: Lula perdeu 5,6 pontos nas cidades pequenas e 0,9 nas grandes. A linha "Todos os municípios" parece mostrar os ricos protegendo Lula só porque, entre os municípios acima de R$ 1.500, estão as cidades grandes, que perderam pouco.
Segundo passo, a regressão. A tabela cruzada não separa o efeito de cada estado: três quartos dos eleitores das cidades pequenas e ricas estão no Sul e no Centro-Oeste, onde Lula caiu mais que a média nacional. Para tirar isso da conta, usamos uma regressão. Ela compara cada município apenas com os outros do mesmo estado (efeito fixo de estado), dá a cada um o peso do seu eleitorado e mede, ao mesmo tempo, quatro coisas: renda, tamanho da cidade, ser capital e o voto que Lula teve em 2022.
| Fator | Efeito na variação de Lula (erro padrão) | Significativo? | O que quer dizer |
|---|---|---|---|
| Renda | −0,27 (0,91) | não | Intervalo de 95%: de −2,07 a +1,52 ponto por unidade de log da renda. Incerto demais para afirmar efeito, positivo ou negativo. |
| Tamanho da cidade | +0,71 (0,10) | sim | Em média, uma cidade de 500 mil eleitores perdeu 2,3 pontos a menos que uma de 20 mil. |
| Ser capital | +0,77 (0,56) | não | Descontado o tamanho, ser capital não acrescenta diferença distinguível de zero. |
| Voto de Lula em 2022 | −0,043 (0,018) | sim | Onde Lula tinha 70%, perdeu 1,3 ponto a mais do que onde tinha 40%: quem tinha mais tinha mais a perder. |
Regressão da variação do voto de Lula (pontos, 2022 → 2026) sobre o logaritmo da renda e do eleitorado, capital e voto de 2022, com efeito fixo de estado e peso pelo eleitorado; erro padrão agrupado por estado; significativo a 95%. 5.570 municípios. Fonte: TSE, dados abertos — votação por seção, presidente, 1º turno, 2022 e 2026; Brasil sem exterior. IBGE, Censo 2022 (tabelas 10295 e 9537). MDS, Bolsa Família, set/2026. Elaboração Opinião Inteligência Política.
A sequência importa. Só com efeito fixo de estado, a renda tem associação clara com a variação: +3,99 (erro padrão 0,31), ou seja, menos queda nos municípios mais ricos. Nessa especificação, a evidência favorece H1. Com os quatro fatores na mesma conta, a associação adicional da renda deixa de ser distinguível de zero (−0,27), enquanto o tamanho da cidade mantém associação forte. A leitura correta é: a associação inicial com a renda existe, mas não resiste aos controles de H3. A regressão mostra associação, não causa. De 2018 para 2022, a mesma regressão também dá renda sem associação distinguível de zero (+0,56) e tamanho com associação (+0,96).
Bolsa Família e religião, pela mesma régua. Sozinha, a proporção de famílias no Bolsa Família parece aumentar a perda de Lula (−0,151 ponto por família a cada 100 moradores). Com tamanho, capital e voto de 2022 na conta, o sinal se inverte (+0,138, significativo). Esse resultado é frágil: depende de controlar o voto de 2022, que anda muito junto com o Bolsa Família, e some quando o controle sai (seção 3.4). O que se sustenta em todas as contas é o negativo: entre cidades parecidas, mais Bolsa Família não aumentou a perda de Lula. A parcela de evangélicos, com os mesmos controles, não tem associação distinguível de zero (+0,009).
3.4 O peso do agro
A pista. A tabela 3.3 mostra que, nas cidades pequenas, as mais ricas perderam mais. Três quartos dos eleitores dessas cidades estão no Sul e no Centro-Oeste, onde a riqueza vem da agropecuária. Para testar se é o agro, e não a renda, juntamos a participação da agropecuária no valor adicionado de cada município (IBGE, PIB dos municípios de 2021, a última edição com abertura por atividade econômica) e dividimos os municípios em três grupos com o mesmo número de cidades.
| Tamanho da cidade | Pouco agro | Agro médio | Muito agro |
|---|---|---|---|
| Até 20 mil eleitores | −4,6 (9,9 mi) | −5,0 (13,0 mi) | −7,3 (11,0 mi) |
| De 20 mil a 200 mil | −3,7 (44,2 mi) | −4,8 (12,6 mi) | −6,0 (4,9 mi) |
| Mais de 200 mil | −1,4 (61,9 mi) | — | — |
Variação do voto de Lula, em pontos dos votos válidos, 2022 → 2026; entre parênteses, eleitores em 2026. Grupos com menos de 1 milhão de eleitores omitidos. Peso do agro: até 11,8%, de 11,8% a 29,5% e acima de 29,5% do valor adicionado. Fonte: TSE, dados abertos — votação por seção, presidente, 1º turno, 2022 e 2026; Brasil sem exterior. IBGE, PIB dos municípios 2021 (tabela 5938, última edição com abertura por atividade), participação da agropecuária no valor adicionado. Elaboração Opinião Inteligência Política.
Cada linha, lida da esquerda para a direita, compara cidades do mesmo tamanho: quanto mais agro, maior a queda. Nas cidades com até 20 mil eleitores, Lula perdeu 4,6 pontos nas de pouco agro e 7,3 nas de muito agro. Cada coluna, lida de baixo para cima, compara cidades com o mesmo peso do agro: quanto menor a cidade, maior a queda. As duas associações se somam.
A regressão. Para comparar o tamanho dos efeitos, padronizamos todos os fatores: o número mostra quantos pontos muda a variação de Lula quando o fator sobe um desvio padrão (no agro, 14,2 pontos percentuais do valor adicionado). Todas as contas comparam municípios do mesmo estado e pesam pelo eleitorado.
| Fator (+1 desvio padrão) | Sozinho | Com tamanho e agro | Com tamanho, agro e voto de 2022 |
|---|---|---|---|
| Tamanho da cidade (eleitores, log) | +1,77 (0,22) | +1,39 (0,17) | +1,36 (0,13) |
| Peso do agro | −1,43 (0,10) | −0,64 (0,10) | −0,58 (0,09) |
| Renda por pessoa (log) | +1,86 (0,15) | +0,38 (0,32) ns | +0,15 (0,27) ns |
| Bolsa Família | −0,96 (0,21) | +0,31 (0,29) ns | +0,86 (0,24) |
| Evangélicos | +0,36 (0,31) ns | +0,08 (0,12) ns | −0,06 (0,14) ns |
Variação do voto de Lula (pontos, 2022 → 2026). Cada fator de renda, Bolsa Família e evangélicos entra em uma regressão separada com os controles da coluna; nas linhas de tamanho e agro, os dois entram juntos. Efeito fixo de estado, peso pelo eleitorado, erro padrão agrupado por estado; ns = não significativo a 95%. 5.569 municípios (um sem dado do PIB). Fonte: TSE, dados abertos — votação por seção, presidente, 1º turno, 2022 e 2026; Brasil sem exterior. IBGE, Censo 2022 (tabelas 10295 e 9537). MDS, Bolsa Família, set/2026. IBGE, PIB dos municípios 2021 (tabela 5938, última edição com abertura por atividade), participação da agropecuária no valor adicionado. Elaboração Opinião Inteligência Política.
Tamanho e agro resistem a todas as combinações e, depois que entram juntos, mudam pouco: cerca de 1,4 ponto a menos de perda por desvio padrão de tamanho e 0,6 ponto a mais por desvio padrão de agro. A renda, que sozinha tem associação forte (+1,86), deixa de ter associação adicional distinguível de zero quando tamanho e agro entram na conta. O Bolsa Família muda de sinal conforme a especificação: sozinho, acompanha perda maior; com tamanho e agro, não se distingue de zero; com o voto de 2022, acompanha perda menor. Evangélicos não têm associação distinguível de zero em nenhuma conta. Não significativo não quer dizer efeito nulo: quer dizer que, com estes dados, não conseguimos separar o efeito de zero. E associação não é causa: tamanho e agro resumem muitas coisas ao mesmo tempo (economia local, religião, meios de informação, presença das campanhas).
Não começou em 2026. A mesma regressão de 2018 para 2022 (Haddad → Lula) já mostra o gradiente: o PT cresceu mais nas cidades grandes (+2,71) e menos nas do agro (−0,44), e naquela eleição os evangélicos também pesaram (−1,67). Em números brutos, de 2018 para 2022 Lula cresceu +10,8 pontos nas cidades pequenas de muito agro e +24,3 nas cidades grandes de pouco agro. O PT cresceu no interior agrícola em 2022, mas bem menos que no resto do país; em 2026, caiu mais ali. Em 2026, a associação com evangélicos deixou de aparecer.
Em todas as regiões. O gradiente de tamanho aparece nas cinco regiões, inclusive no Nordeste.
| Região | Até 20 mil eleitores | 20 mil a 200 mil | Mais de 200 mil |
|---|---|---|---|
| Sul | −8,1 | −5,8 | −2,3 |
| Centro-Oeste | −8,6 | −7,4 | −1,8 |
| Sudeste | −5,9 | −3,8 | −1,6 |
| Norte | −5,2 | −3,6 | −0,1 |
| Nordeste | −4,3 | −3,7 | −1,0 |
Variação do voto de Lula, em pontos dos votos válidos, 2022 → 2026. Fonte: TSE, dados abertos — votação por seção, presidente, 1º turno, 2022 e 2026; Brasil sem exterior. Elaboração Opinião Inteligência Política.
3.5 Para onde foi o voto
Saldo da variação de cada candidatura, em pontos dos votos válidos, e do comparecimento, em pontos do eleitorado. Flávio é comparado com Bolsonaro em 2022.
| Tamanho da cidade | Lula | Flávio | Demais | Comparecimento | Votos de Flávio (2026 − 2022) |
|---|---|---|---|---|---|
| Até 20 mil eleitores | −5,6 | +5,7 | −0,1 | +1,0 | 1,76 mi |
| De 20 mil a 200 mil | −4,1 | +4,2 | −0,2 | +0,6 | 2,46 mi |
| Mais de 200 mil | −1,4 | +2,6 | −1,1 | −1,2 | 0,79 mi |
Fonte: TSE, dados abertos — votação por seção, presidente, 1º turno, 2022 e 2026; Brasil sem exterior. Elaboração Opinião Inteligência Política.
Nas cidades até 200 mil eleitores, a queda de Lula e o ganho de Flávio têm o mesmo tamanho, e os demais candidatos ficaram iguais: os saldos são compatíveis com deslocamento de apoio entre os dois, sem permitir identificar trocas individuais. Elas deram 84% do crescimento de Flávio. Nas cidades grandes, Lula caiu 1,4 ponto e Flávio subiu 2,6, com os demais candidatos encolhendo: o saldo de Flávio é compatível com a absorção de eleitores que em 2022 votaram em terceiros. São saldos de lugares, e não trocas observadas de eleitores; abstenção e novos eleitores também entram nesses números.
Síntese do capítulo
- "Os municípios ricos protegeram Lula" é uma ilusão de composição: os municípios ricos são as cidades grandes, e foram elas que perderam pouco. Comparando cidades do mesmo tamanho, as ricas perderam até mais em três de quatro faixas.
- O que mais se associa à diferença entre quem perdeu muito e quem perdeu pouco é o tamanho da cidade. Lula perdeu cerca de 6 pontos nas cidades pequenas e menos de 1 nas grandes.
- O Bolsa Família não afastou eleitores de Lula: entre cidades parecidas, mais beneficiários não acompanham uma perda maior. Se o programa protegeu Lula, depende da especificação.
- Além do tamanho, o agro: entre cidades do mesmo tamanho e do mesmo estado, quanto maior o peso da agropecuária, maior a queda (seção 3.4).
4Teste 2: escolaridade dos locais dentro da mesma cidade
Município é uma média: São Paulo tem bairros muito pobres e muito ricos. Para comparar vizinhanças, usamos o perfil do eleitorado que o TSE publica por seção e calculamos, em cada local de votação, a parcela de eleitores com ensino superior completo. Dentro de cada cidade, ordenamos os locais por essa parcela e os dividimos em cinco grupos. A escolaridade ordena os locais; não identifica, por si, periferia, centro ou renda. Há periferias escolarizadas e centros populares, e o quinto é relativo à cidade: o grupo de mais estudo de uma cidade pode ter menos escolaridade que o de menos estudo de outra. Por isso falamos em locais de menor e de maior escolaridade. Chamá-los de periferia é uma interpretação plausível, que não validamos com dados dos bairros. Também nem todo município com 20 ou mais locais é uma cidade grande.
| Quinto da cidade | Eleitores com superior | Lula 2022 | Lula 2026 | Variação 2022 → 2026 | Variação 2018 → 2022 (controle) |
|---|---|---|---|---|---|
| 1º (menos estudo) | 3,4% | 51,5% | 47,5% | −4,0 pontos | +19,6 pontos |
| 2º | 6,0% | 48,4% | 45,2% | −3,3 pontos | +20,5 pontos |
| 3º | 9,2% | 46,5% | 43,9% | −2,7 pontos | +21,3 pontos |
| 4º | 14,5% | 44,9% | 42,9% | −2,0 pontos | +22,0 pontos |
| 5º (mais estudo) | 26,7% | 42,3% | 41,2% | −1,0 pontos | +23,1 pontos |
955 cidades com 20 ou mais locais de votação presentes nos dois anos, 45.914 locais, 96,9 milhões de eleitores. Locais com variação de eleitorado acima de 30% excluídos. Fonte: TSE, dados abertos — votação por seção, presidente, 1º turno, 2018, 2022 e 2026; Brasil sem exterior. TSE, perfil do eleitor por seção, 2026. Elaboração Opinião Inteligência Política.
Na mesma cidade, Lula perdeu 4,0 pontos nos locais de menor escolaridade e 1,0 nos de maior. Na regressão com efeito fixo de município e controle do voto anterior, cada 10 pontos a mais de eleitores com superior corresponde a +1,02 ponto a menos de perda (erro padrão 0,08). De 2018 para 2022, o mesmo coeficiente é +0,19 (erro padrão 0,29).
O gradiente é novo? Um ser significativo e o outro não, por si, não prova diferença; testamos a diferença diretamente, empilhando os dois períodos. Com controle do voto anterior, o gradiente de 2022 → 2026 é maior que o de 2018 → 2022 em +0,84 ponto (erro padrão 0,25, p = 0,001), e o resultado se repete nas 874 cidades presentes nos dois períodos. Sem esse controle, não há diferença (−0,20, p = 0,41): em 2018 → 2022 o PT também cresceu mais nos locais de mais estudo (+19,6 contra +23,1), onde Haddad tinha ido mal em 2018. A conclusão depende, portanto, de comparar locais com o mesmo voto anterior. As duas comparações usam a escolaridade do cadastro de 2026, e as amostras diferem (955 cidades no período recente, 908 no anterior).
Preferência e comparecimento. Nos locais de menor escolaridade, Lula caiu 4,0 pontos, Flávio subiu 3,8 e o comparecimento caiu 1,1 ponto; nos de maior escolaridade, o comparecimento caiu 0,15. Os saldos são compatíveis com deslocamento de apoio entre as candidaturas, combinado com queda de participação, sem permitir identificar transferências individuais.
5De onde vieram os votos perdidos
| Onde | Municípios | Eleitores 2026 | Votos que Lula perdeu |
|---|---|---|---|
| Demais municípios (interior) | 4.615 | 48,42 mi | −1,33 mi |
| Cidades com 20 ou mais locais: 1º e 2º quintos (menor escolaridade) | −1,04 mi | ||
| Cidades com 20 ou mais locais: 3º quinto | −0,42 mi | ||
| Cidades com 20 ou mais locais: 4º e 5º quintos | −0,60 mi | ||
| Cidades com 20 ou mais locais, total | 955 | 109,40 mi | −2,07 mi |
| Brasil sem exterior | 5.570 | −3,40 mi |
Estimativa por extrapolação. Cidades com 20 ou mais locais de votação depois dos mesmos filtros do Capítulo 4 (pelo menos 100 votos válidos em 2022 e eleitorado variando no máximo 30%). A perda total dessas cidades é distribuída entre os quintos na proporção medida nos locais filtrados. Fonte: TSE, dados abertos — votação por seção, presidente, 1º turno, 2022 e 2026; Brasil sem exterior. Elaboração Opinião Inteligência Política.
O interior responde por 39,2% da perda com 30,7% dos eleitores; a periferia das cidades maiores, por outros 30,7%. Os dois quintos de maior escolaridade, por 17,8%. A divisão entre quintos é uma estimativa: os locais comparáveis somam uma perda 21,5% maior que a perda total dessas cidades, porque locais novos ou muito alterados somaram votos a Lula, e a conta reparte o total na proporção dos locais comparáveis. Com a regra de inclusão anterior, sem os filtros (1.098 cidades), interior e menor escolaridade somam 68,3%, contra 69,9% com os filtros.
6Teste 3: as pesquisas, faixa por faixa
O Datafolha é o único instituto com o cruzamento por renda e escolaridade publicado nas duas eleições. A Quaest de véspera de 2026 não publicou os cruzamentos, e a de 2022 também não. Em 2022, usamos a rodada de 27 a 29 de setembro, a última com o cruzamento completo.
| Grupo | Lula 2022 | Lula 2026 | Lula, variação | Bolsonaro/Flávio, variação |
|---|---|---|---|---|
| Até 2 salários mínimos | 59% | 54% | −5 | +7 |
| De 2 a 5 salários mínimos | 40% | 37% | −3 | +6 |
| Mais de 5 salários mínimos | 37% | 36% | −1 | +1 |
| Ensino fundamental | 62% | 61% | −1 | +5 |
| Ensino médio | 47% | 39% | −8 | +8 |
| Ensino superior | 40% | 40% | 0 | +5 |
Fonte: Datafolha: 27 a 29/09/2022 (6.800 entrevistas; a rodada de véspera não publicou o cruzamento completo) e 2 e 3/10/2026 (4.006). Acima de 5 SM em 2022: média ponderada das faixas de 5 a 10 e acima de 10 SM, conta da Opinião.
As pesquisas olham pessoas e contam a mesma história das urnas. A maior perda está entre quem ganha até 2 salários mínimos (−5 pontos) e entre quem tem ensino médio (−8). Entre quem tem faculdade, Lula ficou igual; acima de 5 salários mínimos, perdeu 1 ponto. Na AtlasIntel de 2026, pesquisa online, o padrão por renda é diferente, com Lula à frente na faixa mais alta; o instituto não publicou o cruzamento comparável de 2022.
O que a tabela não permite dizer. O material usado não traz o tamanho de cada subamostra nem a margem de erro por faixa, então não testamos se a diferença entre −5 e −1 é estatisticamente distinguível; a margem de cada segmento é maior que a da amostra total. Renda e escolaridade são cruzamentos separados e não mostram que as perdas se concentram nas mesmas pessoas. Em 2022, a faixa acima de 5 salários mínimos é a média das faixas de 5 a 10 e acima de 10, ponderada pela participação de cada uma na amostra.
7Conclusão
Síntese
- H1, a queda foi maior nos municípios pobres: aparece sem controles (menor queda nos dois grupos mais ricos; coeficiente de renda +3,99), mas não resiste aos controles de H3.
- H2, Lula subiu nos municípios ricos: não se confirma. Ele caiu em todos os grupos.
- H3, o padrão resiste aos controles: não resiste. Com tamanho, capital e voto anterior, a associação adicional da renda não se distingue de zero; a do tamanho da cidade continua forte.
- H4, dentro das cidades os locais de menor escolaridade perderam mais: confirma-se. O gradiente é maior que em 2018 → 2022 quando se controla o voto anterior.
- H5, nas pesquisas Lula caiu mais entre os mais pobres: o Datafolha mostra padrão descritivo compatível, sem teste estatístico da diferença entre faixas.
- H6 (exploratória), o agro: confirma-se como associação. Entre cidades do mesmo tamanho e estado, quanto mais agro, maior a queda. De 2018 para 2022, o PT já tinha crescido menos nesses lugares.
Lula perdeu participação nos votos válidos em todos os grupos municipais de renda. A menor queda nos municípios mais ricos perde força quando se controlam o tamanho da cidade e outras características; o tamanho e o peso do agro mantêm associação forte com a queda. Dentro dos municípios analisados, os locais de menor escolaridade tiveram quedas maiores, com comparecimento também menor. As pesquisas do Datafolha sugerem perda mais intensa na baixa renda e no ensino médio. Os dados mostram onde o apoio mudou; não identificam transferências individuais nem demonstram os mecanismos.
A frase que circula, portanto, não se sustenta na sua forma forte: Lula não ganhou entre os mais ricos. Nos locais de maior escolaridade e nas capitais, ficou perto de onde estava, e os municípios mais pobres, no Norte e no Nordeste, continuam dando a ele 7 de cada 10 votos.
7.1 Uma hipótese a testar: o discurso
Os locais de menor escolaridade eram a base de Lula nas cidades grandes: ali ele tinha 51,5% em 2022, a maior votação dentro dessas cidades, e ali perdeu mais. No Datafolha, a maior queda está entre quem tem ensino médio e ganha até 2 salários mínimos. Uma leitura possível é que o discurso do PT deixou de falar com esse eleitor: o trabalhador de serviço, de comércio e de aplicativo, que terminou a escola e ganha pouco. É hipótese. Os mesmos números são compatíveis com explicações econômicas (preço da comida, endividamento), com a segurança pública, com o perfil do candidato adversário e com afastamento da eleição, já que o comparecimento também caiu mais nesses locais.
7.2 Próximos passos de pesquisa
- Ouvir quem saiu de Lula. Grupos focais em bairros de menor escolaridade de duas ou três capitais, com eleitores que votaram em Lula em 2022 e não votaram nele em 2026.
- Medir o porquê. Na próxima rodada quantitativa, perguntar se Lula fala com pessoas como o entrevistado, qual o principal problema da família hoje e o voto em 2022 e em 2026. Isso separa desencanto com o discurso, problema econômico e troca de candidato.
- Acompanhar o comparecimento. Os locais de menor escolaridade foram os que mais perderam eleitores entre 2022 e 2026; a mobilização do 2º turno pode mudar esse quadro.
- Seguir o eleitor dos candidatos eliminados. Nas cidades grandes, Flávio cresceu enquanto os demais candidatos encolhiam. O voto de 1º turno, perguntado na pesquisa de 2º, mostra se esse eleitor permanece.
- Validar a periferia. Cruzar os locais de votação com a renda dos setores censitários do Censo 2022, para confirmar se os locais de menor escolaridade estão de fato na periferia.
8Limitações
- Lugares não são pessoas. Municípios e locais de votação são médias: um bairro de maior escolaridade também tem eleitores pobres. As pesquisas complementam, mas só o Datafolha permite a comparação entre as duas eleições.
- Escolaridade do cadastro eleitoral é declarada no alistamento e desatualizada para parte do eleitorado. Serve para ordenar os locais dentro da cidade, não para medir renda nem para identificar periferia, o que exigiria cruzar os locais com dados dos setores censitários.
- Saldos não são trocas. Queda de um candidato e alta de outro no mesmo lugar podem combinar migração, abstenção, novos eleitores e movimentos entre várias candidaturas.
- Associação não é causa. Tamanho da cidade e peso do agro resumem muitas características ao mesmo tempo. Não significativo não quer dizer efeito nulo.
- A decomposição do Capítulo 5 é estimativa, por extrapolação da proporção medida nos locais comparáveis.
- Renda e religião são do Censo 2022; o peso do agro, do PIB dos municípios de 2021, a última edição com abertura por atividade econômica (as de 2022 e 2023 não trazem essa abertura). Para ordenar municípios, a variação até 2026 é pequena.
- H6 nasceu dos dados. A hipótese do agro foi formulada depois de ver a tabela 3.3 e deve ser confirmada em outra eleição ou com outra medida, como a área plantada.
- Locais de votação mudam entre eleições. Usamos os presentes nos dois anos, com variação de eleitorado de até 30%.
- Pesquisas de 2022 e 2026 de rodadas diferentes no Datafolha: a véspera de 2022 não publicou o cruzamento completo; usamos a rodada de 27 a 29/09.
Código, bases e resultados em analises/nacional/1turno/renda/ (PROTOCOLO.md, montar_base_mun.py, montar_perfil_local.py, analise_mun.py, analise_local.py, decomposicao.py, onde_porque.py). Elaboração Opinião Inteligência Política.