O eleitor de Lula ficou em casa? — abstenção no 1º turnoBrasil · 2018, 2022 e 2026, por município e local de votação
Responsável técnico: Alexandre Garcia — CEO, Opinião Inteligência Política
1Objetivo, hipóteses e fontes
No 1º turno de 4 de outubro de 2026, Flávio Bolsonaro teve 56.104.503 votos e Lula, 53.879.538: uma diferença de 2,2 milhões. Em 2022, no 1º turno, Lula tinha ficado 6,2 milhões à frente de Jair Bolsonaro. Uma campanha sustenta que parte dessa virada se explica por eleitores de Lula que não foram votar, por acharem que a eleição estava ganha. Este estudo verifica se isso aconteceu e em que tamanho.
Antes de rodar os testes, registramos três hipóteses e os critérios para aceitá-las. H1: a abstenção cresceu mais, de 2022 para 2026, onde Lula era mais forte. H2: entre os eleitores de Lula em 2022, a parcela que não votou em 2026 é maior que entre os de Bolsonaro. H3: o saldo de votos que Lula perdeu para a abstenção, descontado o de Flávio, passa de 1 milhão. A tese da campanha se sustenta se as três se confirmarem.
Os dados são os arquivos abertos do Tribunal Superior Eleitoral com o resultado de cada seção eleitoral: os votos para presidente e o número de eleitores aptos, de quem compareceu e de quem faltou. Trabalhamos com duas unidades. O município é estável entre eleições e cobre o país inteiro. O local de votação, a escola onde funcionam as seções, é mais fino e permite comparar vizinhanças; usamos os locais presentes nos dois anos, que reúnem 94% do eleitorado de 2026. O exterior fica fora.
O Capítulo 2 mostra a abstenção em números. Os Capítulos 3 e 4 aplicam os dois testes: uma regressão que mede se a abstenção subiu onde Lula era forte, e uma estimativa de quantos eleitores de cada lado ficaram em casa. O Capítulo 5 repete tudo em 2018 → 2022, como controle. O Capítulo 6 traz a conclusão e a conta do 2º turno. O Capítulo 7 registra as limitações.
2A abstenção em números
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral, dados abertos — votação e detalhe da votação por seção, 1º turno, presidente, 2022 e 2026. Brasil sem exterior. Elaboração Opinião Inteligência Política. Votos de Lula com exterior, resultado oficial.
No total, a abstenção quase não mudou: 20,79% em 2022 e 20,84% em 2026. Os 3,4 milhões de votos que Lula perdeu não aparecem como aumento de quem faltou. O que mudou foi onde a abstenção aconteceu.
2.1 Por força de Lula em 2022
| Municípios onde Lula teve, em 2022… | Municípios | Eleitores em 2026 | Abstenção 2022 | Abstenção 2026 | Variação |
|---|---|---|---|---|---|
| até 30% | 489 | 13,5 mi | 20,9% | 20,4% | −0,5 ponto |
| 30-40% | 990 | 38,0 mi | 20,8% | 21,1% | +0,3 ponto |
| 40-50% | 1.066 | 48,6 mi | 21,1% | 22,2% | +1,1 ponto |
| 50-60% | 805 | 20,2 mi | 19,4% | 19,5% | +0,1 ponto |
| 60-70% | 737 | 16,4 mi | 19,9% | 19,5% | −0,4 ponto |
| 70+% | 1.483 | 21,1 mi | 22,0% | 19,8% | −2,1 ponto |
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral, dados abertos — votação e detalhe da votação por seção, 1º turno, presidente, 2022 e 2026. Brasil sem exterior. Elaboração Opinião Inteligência Política.
Nos municípios onde Lula teve mais de 70% em 2022, a abstenção caiu 2,1 pontos: mais gente foi votar. Onde ele teve entre 40% e 50%, faixa que reúne as grandes cidades do Sul e do Sudeste, subiu 1,1.
2.2 Por região
| Região | Abstenção 2022 | Abstenção 2026 | Variação |
|---|---|---|---|
| Centro-Oeste | 21,3% | 21,7% | +0,4 ponto |
| Norte | 20,9% | 19,4% | −1,5 ponto |
| Nordeste | 19,5% | 18,4% | −1,1 ponto |
| Sul | 19,3% | 20,5% | +1,1 ponto |
| Sudeste | 22,0% | 22,7% | +0,8 ponto |
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral, dados abertos — votação e detalhe da votação por seção, 1º turno, presidente, 2022 e 2026. Brasil sem exterior. Elaboração Opinião Inteligência Política.
3Teste 1: a abstenção subiu onde Lula era forte?
O primeiro teste mede quanto a abstenção variou para cada 10 pontos de voto em Lula na eleição anterior. É uma regressão ecológica: compara lugares, não pessoas. Se a tese estiver certa, o número é positivo, ou seja, a abstenção sobe mais onde Lula era forte. Cada lugar pesa pelo seu eleitorado, e os controles são o tamanho do lugar e o crescimento do eleitorado.
A comparação mais justa é dentro de cada estado. Ela tira do caminho tudo o que move um estado inteiro, como a disputa para governador ou o clima, e compara, por exemplo, a periferia e o centro de São Paulo entre si. A tabela mostra o mesmo teste nas duas eleições.
| Comparação | 2022 → 2026 | Significativo? | 2018 → 2022 (controle) | Significativo? |
|---|---|---|---|---|
| Municípios, país inteiro | −0,27 (0,10) | sim | −0,15 (0,10) | não |
| Municípios, dentro de cada estado | +0,15 (0,09) | não | −0,26 (0,09) | sim |
| Locais de votação, país inteiro | −0,15 (0,13) | não | −0,08 (0,08) | não |
| Locais de votação, dentro de cada estado | +0,17 (0,20) | não | −0,22 (0,06) | sim |
Pontos de abstenção por 10 pontos de voto no PT na eleição anterior (Lula em 2022, Haddad em 2018); entre parênteses, erro padrão agrupado por estado. Significativo: a 95%. Fonte: Tribunal Superior Eleitoral, dados abertos — votação e detalhe da votação por seção, 1º turno, presidente, 2018, 2022 e 2026. Brasil sem exterior. Elaboração Opinião Inteligência Política.
Entre 2022 e 2026, dentro dos estados, o efeito é de +0,15 ponto: na direção da tese, mas pequeno e não significativo. Em votos, equivale a cerca de 1,1 milhão de eleitores de Lula a mais em casa, com margem de −0,3 a 2,5 milhões.
O controle muda a leitura. Entre 2018 e 2022, o mesmo teste dá −0,26, negativo e significativo: em 2022, o eleitor do PT foi mais às urnas que o resto, cerca de 1,1 milhão a mais. Essa vantagem de mobilização desapareceu em 2026.
4Teste 2: quantos eleitores de cada lado ficaram em casa
O segundo teste estima para onde foi cada eleitor de 2022: votou em Lula, em Flávio, em outro candidato, anulou ou ficou em casa. É uma inferência ecológica: como o voto é secreto, a estimativa sai das variações entre os locais de votação. Se num conjunto de escolas o voto em Lula caiu exatamente onde a abstenção subiu, o método atribui a abstenção ao eleitor de Lula. Usamos a regressão de Goodman com restrições (as proporções ficam entre 0 e 100% e cada eleitor tem um destino), com intervalos por reamostragem dos locais.
4.1 A taxa de quem não votou, por região
| Escopo | Eleitor de Lula em 2022 que não votou em 2026 | Eleitor de Bolsonaro em 2022 que não votou em 2026 |
|---|---|---|
| Brasil | 2,5% (2,2 a 3,0) | 1,4% (1,1 a 1,7) |
| Norte | 5,9% (5,0 a 6,3) | 6,6% (5,0 a 7,1) |
| Nordeste | 7,3% (7,0 a 7,5) | 5,7% (5,3 a 5,9) |
| Centro-Oeste | 15,6% (13,9 a 16,8) | 6,0% (4,7 a 7,4) |
| Sudeste | 11,1% (10,5 a 12,0) | 0,0% (0,0 a 0,6) |
| Sul | 8,3% (8,2 a 8,8) | 0,0% (0,0 a 0,0) |
Entre parênteses, intervalo de 90% por reamostragem dos locais de votação. Fonte: Tribunal Superior Eleitoral, dados abertos — votação e detalhe da votação por seção, 1º turno, presidente, 2022 e 2026. Brasil sem exterior. Elaboração Opinião Inteligência Política.
4.2 Em votos, por quatro caminhos
O resultado em votos depende de como se agrupa o país. Estimar o Brasil num bloco só supõe que o eleitor de Lula se comporta igual no Maranhão e em São Paulo. Estimar por região ou por estado relaxa essa suposição. A tabela traz as quatro contas e, ao lado, as mesmas contas no controle de 2018 → 2022.
| Método | 2022 → 2026: saldo de eleitores do PT em casa | 2018 → 2022 (controle) |
|---|---|---|
| Regressão, dentro dos estados | +1,1 mi (−0,3 a 2,5) | −1,1 mi |
| Transição, Brasil num bloco só | +0,7 mi | −1,3 mi |
| Transição, soma das 5 regiões | +3,8 mi | −1,1 mi |
| Transição, soma dos 27 estados | +3,6 mi | −1,4 mi |
Saldo: eleitores do PT na eleição anterior que não votaram, menos os de Bolsonaro. Positivo = contra o PT. Na regressão, entre parênteses, a margem de 95%. Fonte: Tribunal Superior Eleitoral, dados abertos — votação e detalhe da votação por seção, 1º turno, presidente, 2018, 2022 e 2026. Brasil sem exterior. Elaboração Opinião Inteligência Política.
No controle de 2018 → 2022, as quatro contas concordam: o PT teve entre 1,1 e 1,4 milhão de eleitores a menos em casa que Bolsonaro. Em 2026, elas divergem: de 0,7 milhão no bloco nacional a 3,8 milhões somando as regiões. As contas por região e por estado convergem entre si, perto de 3,6 a 3,8 milhões, mas algumas taxas regionais encostam no limite de zero para o eleitor de Bolsonaro, o que não é plausível: entre uma eleição e outra, uma parte de qualquer eleitorado morre ou muda de domicílio e passa a constar como ausente.
5O teste de controle: 2018 → 2022
Repetimos os dois testes entre 2018 (Haddad x Bolsonaro) e 2022 (Lula x Bolsonaro), com a mesma base e os mesmos métodos. O controle responde a duas perguntas: os métodos funcionam nesses dados, e o que é normal de uma eleição para outra?
| 2018 → 2022 | 2022 → 2026 | |
|---|---|---|
| Abstenção nacional | 20,19% → 20,79% | 20,79% → 20,84% |
| Regressão dentro dos estados | −0,26 (significativo) | +0,15 (não significativo) |
| Saldo de eleitores do PT em casa | −1,1 a −1,4 mi (as quatro contas concordam) | +0,7 a +3,8 mi (as contas divergem) |
Fonte: Tribunal Superior Eleitoral, dados abertos — votação e detalhe da votação por seção, 1º turno, presidente, 2018, 2022 e 2026. Brasil sem exterior. Elaboração Opinião Inteligência Política.
6Conclusão e o que isso significa para o 2º turno
Síntese
- H1, a abstenção subiu onde Lula era forte: não se confirma. No país, ela caiu nos redutos de Lula; dentro dos estados, subiu um pouco, sem significância.
- H2, o eleitor de Lula ficou mais em casa: confirma-se, em todas as contas.
- H3, saldo acima de 1 milhão: provável, mas incerto. A faixa vai de 0,7 a 3,8 milhões; a estimativa central fica perto de 1,1 milhão.
Pelos critérios registrados antes dos testes, a tese da campanha não se sustenta por inteiro. Ela acerta a direção: o eleitor de Lula foi menos às urnas, e o PT perdeu a vantagem de mobilização de 2022. Ela exagera o peso do mecanismo: Lula perdeu 3,4 milhões de votos num país em que a abstenção ficou igual. Pela estimativa central, cerca de 1,1 milhão de saldo veio de quem ficou em casa; o resto veio de eleitores que foram votar e escolheram outro candidato, anularam ou votaram em branco.
6.1 A conta do 2º turno
Flávio saiu do 1º turno 2,2 milhões de votos à frente. Pela divisão da Quaest de véspera, os 9,3 milhões de votos dos demais candidatos rendem a ele mais cerca de 2,5 milhões de saldo no 2º turno. Para virar, Lula precisa de algo perto de 4,7 milhões de votos líquidos. Mesmo no limite de cima da estimativa, se todos os eleitores que ficaram em casa voltassem e votassem nele, o saldo da abstenção não chegaria lá. Em 2022, do 1º para o 2º turno, o comparecimento cresceu 560 mil eleitores.
7Limitações
- Dados agregados não mostram o voto de cada eleitor. Os dois testes comparam lugares. A inferência ecológica tem incerteza própria, e por isso o relatório mostra quatro contas e um teste de controle.
- O cadastro eleitoral tem eleitores falecidos e mudanças de domicílio, que aparecem como abstenção. O efeito existe nas duas eleições comparadas e se reduz na diferença, mas pesa nas taxas de transição.
- Locais de votação mudam entre eleições. Usamos os que existem nos dois anos e mantiveram o tamanho, 94% do eleitorado de 2026. Locais que cresceram ou encolheram mais de 30% ficaram fora.
- O motivo de quem não votou, como "achei que estava ganho", só uma pesquisa responde. Propomos incluir na próxima rodada a pergunta sobre o voto no 1º turno e, para quem não votou, o motivo e a intenção no 2º.
Código, bases e resultados em analises/nacional/1turno/abstencao/ (PROTOCOLO.md, montar_base.py, analise.py, transicao_uf.py). Elaboração Opinião Inteligência Política.